TERRAS DE PENAGOYÃ : GODYM : REGULA

Apesar de nos tempos de hoje não ser uma realidade correspondente ao que era no passado, defendo a sua promoção e estudo. Porque a nossa história deve ser estudada, preservada e publicitada.
SE NÃO DEFENDERMOS O QUE É NOSSO, QUEM É QUE O DEFENDE?
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Por Monteiro de Queiroz, 2018

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A Cidade Nova do Peso da Régua : 1144 - 1724 - 1870


As associações que um garoto faz! No meu tempo de escola primária decoravam-se muitas listas de serras, rios, estações de vias férreas e, não sei a que propósito (ou não seria na história, com a Real Companhia Vinícola do Alto Douro?), falava-se em Peso da Régua. Duas palavras familiares para qualquer garoto: o peso (por exemplo, o peso da mala dos livros) e a régua que ia dentro da mala. Mas como conjugá-las? Aí intervinha uma terceira noção, também aprendida na escola primária: a balança decimal romana, que na minha infância ainda era de uso corrente nas feiras de província. A balança é, o leitor sabe-o, constituída por um peso que se desloca numa régua graduada. E aqui está a minha primeira ideia da terra: uma balança. O que ela pesava, nunca foi muito claro para mim: a força da Beira contra a força do país ao norte do Douro? O embate entre o país raiano e o ocidente litoral? Simplesmente, o peso das dornas das uvas embarcadas nos barcos rabelos? Sei que todas essas noções se emaranhavam naquele núcleo confuso, naquela espécie de feto de ideias incompletas. Nem tenho a certeza de que fossem fantasias nascidas nos escaninhos da minha imaginação infantil ou sugestões inteligentes dos professores que me ensinavam. Professores só tive dois, o senhor Guterres, que tinha de comum comigo a raiz em Santa Maria das Donas, e D. Maria do Patrocínio, que me ensinou a escrever e me levou a exame, e é ainda hoje dos espíritos mais acutilantes e das inteligências mais comunicativas que até hoje conheci. E permita-me o leitor que deixe aqui uma declaração humilde mas solene: a todos os professores que depois tive, não devo tanto como aos da escola primária. Não é uma confidência biográfica, mas um desabafo político: quando se entenderá esta lição?

Mas hoje sinto que a ideia da balança está inteiramente certa. O Peso da Régua é um factor de equilíbrio entre regiões opostas, um grande entreposto de mercadorias afluentes.

Etimologicamente, claro que a explicação do topónimo é outra. Estamos perante uma coligação de palavras; ainda hoje qualquer habitante sabe que o Peso é lá em cima, na crista montanhosa que domina o vale fluvial, e a Régua é o nome da povoação de ruas estiradas, cá em baixo, que vai junto da torrente do Douro.

Aquela de que temos notícias mais antigas é a da Régua, porque já D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, doou a igreja que ali existia a D. Hugo, bispo do Porto, e juntamente com ela metade do rendimento da barca de passagem do rio. As barcas de passagem foram, até 1870, o único atravessadouro do terrível obstáculo natural que o curso do Douro constituía. Bastava isso para fazer da Régua lugar notável.

O autor da descrição quinhentista de Lamego dá conta de quantas eram: a barca de Bagaúste que pertencia ao bispo de Lamego; a da Régua, do bispo do Porto e do infante D. Fernando; a do Carvalho, na dependência de uma quinta; a do Moledo, instituída pela rainha D. Mafalda; a do Bernaldo, também de uma quinta; e, finalmente, a do Porto de Rei, também da rainha Mafalda.

Este interesse da rainha D. Mafalda pelas barcas está ligado à lenda dos poiais do Douro. Em Mesão Frio, perto de Barqueiros, existem as ruínas do que parece ter sido um pilar de ponte. A lenda completa o quadro: a rainha Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques, parira um filho e mandou aos régios astrólogos que lhe dissessem que destino ia ter aquele menino. Vai morrer afogado nas águas do rio Douro, profetizaram eles. Era o destino de muita gente, quando a força da torrente despedaçava as barcas contra os rochedos dos cachões e valeiras. D. Mafalda mandou então construir a ponte, e deu ordens para que todos trabalhassem nas grandes obras. Já os pilares estavam prontos e iam começar a lançar os arcos, foi a rainha ver os trabalhos. O principezinho, que começava a dar os primeiros passos, não tardou a ser engolido por uma poça de lama feita pelo pé de uma vaca. A rainha compreendeu que ninguém pode lançar pontes sobre a força do destino, e a ponte ficou incompleta.

Deixemos porém a lenda. A Vila Regulae era, com toda a probabilidade, vila rústica romana que aproveitava a riqueza dos nateiros depositados pelo rio, terras tão ricas que, dizia Ramalho, se podia comer à sombra das grandes couves galegas que ali se criam. Não existe hoje qualquer vestígio do passado romano, e penso que ali sucedeu o mesmo que junto das outras povoações situadas na margem dos rios: o nível das águas subiu, os aluviões foram lentamente cobrindo as margens e sepultando as ruínas. Mas restam lendas como, por exemplo, a da fundação da Igreja de São Faustino, que a tradição dizia ter sido instituída pelo próprio imperador Constantino Magno, quando ele abraçou o cristianismo. É certo apenas que uma igreja de origem muito antiga ficava à beira-rio, e que em 1724 uma grande cheia a acabou de destruir; a matriz foi então reedificada na parte alta da encosta, para evitar acidentes no futuro. É a que hoje serve de matriz. Além dessa igreja diz-se que na margem não havia ainda, em 1700, qualquer construção e o lugar tinha fama de insalubre; por essa época foi para ali viver um pescador que fez a primeira cabana, e a quem por isso ficou o apelido de «cabana».

No alto da escarpa, bem defendido pelo fosso natural do rio ficava o Peso, palavra que vem de penso, repasto dos animais e folga de almocreves. Era, verosimilmente, lugar de povoamento pré-histórico, como o são todos aqueles cumes montanhosos fronteiriços ao grande rio. Mas a notícia segura que temos é que em 1144 um bispo do Porto aforou a vila do Peso a três colonos, Ero Calvo, Paio Peres e Soeiro Peres. Esses três lavradores devem ter metido o ferro do arado aos terrenos empedernidos por séculos de mortório e colocaram pedra sobre pedra as casas da primeira aldeia, que teve sempre vida completamente independente da terra do vale.

Aqui o centro da vida era a barca da passagem do rio; no alto, a riqueza tinha de se procurar na terra, rompendo solos frios com o ferro do arado e fabricando várzeas onde só moravam rochedos. O autor da Descrição de Lamego diz que a terra era levada, em cestos, desde a fundura do vale até à rampa rochosa, para fazer aí socalco. E foram precisos alguns séculos de esforço humano para corrigir a lei da gravidade e a força da erosão permanente.

Os tais heróis, o Calvo e os dois Peres, são os verdadeiros fundadores de uma cidade nascida do esforço humano contra as leis da natureza. Os autarcas de agora devem-lhe uma homenagem. Passei pela Câmara, quis falar com algum responsável para actualizar a minha informação (há sempre um aspecto que nos escapa, um número a evidenciar), mas estavam todos tão ocupados que não cheguei a falar com ninguém. Bom sinal. Como o Calvo e os Peres, continuam a rude tarefa da construção da cidade. O que eles não fizeram por si, ninguém o fará por eles. Pois aí fica a simples sugestão: a estátua ao Calvo e aos Peres, na muda mas concludente afirmação de que, se as terras fazem os homens, os homens, se forem fortes e determinados, também podem fazer as terras.

O TEMPO E A ALMA
Itinerário Português
José Hermano Saraiva

Edição Círculo de Leitores, 1986
Vol II, (pp. 504, 506)
(Biblioteca Municipal de Santa Marta de Penaguião)

Edição Gradiva, 1987
(pp. 148, 153)
(Biblioteca Municipal de Vila Real)

[r.2025.12.25 - Monteiro deQueiroz]
Eduardo José Monteiro de Queiroz - Monteiro deQueiroz - por MdQ - dQz